Os biocombustíveis são uma ameaça à produção de alimentos?

O fato da população mundial estar prestes a passar de 6 para 7 bilhões de habitantes impulsiona ainda mais a questão sobre a utilização de grandes áreas para o plantio de culturas destinadas a produção de biocombustíveis. A pergunta que vem sendo feita é praticamente a mesma em todos os países. “Na corrida para alimentar todas as pessoas, os biocombustíveis despontam como uma ameaça?”

Especialistas do mundo todo afirmam que é possível conciliar a produção de comida com a de etanol e diesel a partir de cana e grãos. Segundo o professor Lee Lynd, do Dartmouth College, Estados Unidos, em palestra na primeira Conferência Brasileira de Ciência e Tecnologia em Bioenergia (BBEST), realizada de 14 a 18 de agosto em Campos do Jordão (SP), “os problemas relacionados à fome no mundo têm mais relação com a pobreza e o desenvolvimento econômico dos países do que com a produção de cultivos para bioenergia”.

Ainda segundo Lynd, depois de décadas de descaso, há um consenso emergente de que a melhor maneira de lutar contra a fome é ajudar pobres e vulneráveis à fome a cultivar seu próprio alimento. E lembrou ainda que a África tem 12 vezes mais terra com qualidade similar e 30% menos pessoas do que a Índia, mas o país asiático consegue produzir alimentos para a população. O problema para os africanos está mais na fraqueza organizacional e institucional do que nas restrições geográficas.

Especialistas brasileiros também avaliam que conciliar – e integrar – a produção de alimentos com a de energia é perfeitamente possível, mas alertam que, para chegar lá, o Brasil precisa definir metas e rever alguns paradigmas. O primeira deles: a era do alimento barato acabou. E não apenas por causa dos biocombustíveis. “Os preços se alteram porque a demanda passou a controlar o mercado. E, com o aumento da população e da renda mundial, a demanda por comida é crescente, apenas uma recessão muito forte na Ásia reverteria essa tendência”, declarou o economista José Roberto Mendonça de Barros, da MB Associados.

A falta de políticas públicas claras e transparentes também foi citada como um dos principais entraves ao desenvolvimento do setor energético. “O Brasil passou de exportador a importador de gasolina e etanol. E vai continuar nesta condição por pelo menos mais três ou quatro anos”, previu o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires.

“O que aprendemos nos anos de glória do etanol é que sempre que a produção dobra o preço cai 20%, disse José Goldemberg, professor da Universidade de São Paulo (USP) especialista em energia.

Ele avaliou que há espaço para que a produção brasileira cresça entre 5% e 10% ao ano, mas disse que isso não vai acontecer sem políticas públicas mais acertadas e direcionadas para incentivar um novo ciclo de investimentos no setor.

“Se o Brasil produzisse cinco vezes mais etanol do que hoje, seríamos um player tão importante quanto a Arábia Saudita é para o petróleo. Para isso, precisaríamos produzir 10% do etanol consumido no mundo, mas hoje ainda estamos em 2%. O governo precisa dar mais atenção ao setor. Deixar o etanol definhar, de novo, é algo que vai custar caríssimo para o Brasil”, analisou Goldemberg.

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