Deu no ‘New York Times’: Energia nuclear perde vantagem de custo para a energia solar fotovoltaica. Será mesmo?

Recentemente a imprensa Americana, incluindo o New York Times, veiculou informações sobre o relatório escrito por John Blackburn e Sam Cunningham, da Duke University da Carolina do Norte, que acabou repercutindo na comunidade acadêmica e na indústria energética nacional. Nele os autores procuram demonstrar que o custo da energia solar, obtida a partir de módulos fotovoltaicos, passou a ser mais econômico do que a energia elétrica das usinas nucleares. O texto procura denegrir a energia nuclear mais do que exaltar a energia solar, tendo por objetivo claro a política energética do estado da Carolina do Norte. Isto independentemente de estarem tramitando projetos para 34 novas usinas nucleares nos EUA, em diferentes estágios de amadurecimento. Alguns já alcançaram estágios de obras preliminares de preparação das fundações e outros encontram-se em estágios menos avançados, como estudos de viabilidade e solicitação de licenças de construção e operação.

Nosso país consome apenas 2400 KWh/pessoa/ano, o que nos coloca numa condição 50% aquém do consumo de eletricidade de 5000 KWh/pessoa/ano, que segundo a ONU, separa, ou segrega, os países desenvolvidos dos países em desenvolvimento. Portanto, necessita-mos de todas as formas de geração de eletricidade, principalmente as de menor custo e mais amistosas para com o meio ambiente, para atenuar a nossa defasagem energética.

Reconhecemos que a energia solar é parte da solução, que seus custos de instalação e operação/manutenção estão caindo, entretanto, discordamos da ênfase do relatório em denegrir a opção nuclear.

Apesar de fazer parte da solução, o atual estágio da energia solar ainda a coloca distante de uma participação significativa na geração de eletricidade, quer por falta de escala, por elevados custos e por representar um significativo impacto ao meio ambiente.

Os sistemas fotovoltaicos são constituídos por duas partes principais: os painéis solares e o sistema que interage com os painéis, ou “balance system (BOS)”. A geração de eletricidade dos painéis produz corrente contínua, que deve ser convertida em corrente alternada para o consumo mais comum da indústria. Portanto, as atividades do “upstream” ou inicio do ciclo de produção solar, envolvem mineração de materiais que serão usados nos painéis e no BOS. Os painéis solares são feitos de materiais semicondutores, semelhantes aos usados na indústria eletrônica. Sílica de “qualidade solar”, derivada de areia de quartzo, é o material mais comum encontrado na fabricação dos painéis. Os filmes encontrados nos painéis requerem metais raros, alta tecnologia e processos intensivos em material e energia.

As atividades do “downstream”  do ciclo de vida da geração solar incluem geração de eletricidade, estocagem e deposição ou reciclagem de painéis usados. Estas atividades têm potencial de criar grandes quantidades de rejeito, um problema exacerbado pelo potencial tóxico dos produtos químicos encontrados dos painéis, que constituem ameaça ao solo e a água.

A captura de quantidades de energia solar necessárias para produzir significativas quantidades de eletricidade requer certa quantidade de terra. Tipicamente a produção de 1 Kwh de energia elétrica requer 1 m2 de painel fotovoltaico ao longo de um dia de verão, e uma área maior durante o inverno. Painéis que acompanham a posição do sol produzem mais, porém são mais caros. O impacto sobre o uso da terra e o custo associado à sua aquisição representam desvantagens ambiental e econômica.

A energia solar é descontinuada durante a noite, entretanto os fatores de capacidade dos sistemas fotovoltaicos são de apenas 18%, tendo em vista as diferentes estações e a deficiente incidência dos raios solares sobre os painéis, devido ao movimento relativo do sol. Painéis móveis aumentam o fator de capacidade, porém com elevação do custo do sistema e aumento dos gastos de operação e manutenção.

A natureza da geração solar fotovoltaica é direcionada para geração distribuída, que tem um alcance limitado no aumento de geração decorrente do aumento de custos pela redução nas escalas dos empreendimentos.

Na realidade, quanto maior for a instalação de tecnologias de geração descontínua, como solar, eólica, ou mesmo hidrelétricas sem reservatórios (a fio d água), maior será a necessidade de complementação de energia de base, dentre as quais se destaca a nuclear. No caso particular da solar fotovoltaica, com fator de capacidade de apenas 18%, para cada MWh solar gerado, 4 outros MWh precisarão ser gerados por empreendimentos de base, caso desejemos preservar a continuidade dos sistemas elétricos.. Se esta geração complementar se fizer através de tecnologias com forte impacto ambiental, como o carvão, o aumento da geração intermitente solar representará um significativo impacto ambiental. Caso a complementação se fizer com tecnologias de alto custo, como geração a Diesel ou gás natural, representará também um considerável aumento de custos.

O texto também reconhece que a energia solar no Estado da Carolina do Norte é objeto de benefícios fiscais, que vêm sendo reduzidos ao longo do tempo, porém cuja expectativa de eliminação ainda se encontra uma década no futuro. O custo atribuído de US$ 0,159/KWh, que seria supostamente inferior ao custo nuclear,  só é possível com um subsídio equivalente a 45% sob a forma de subsídios estaduais e federais.

Concluímos ressaltando a necessidade do desenvolvimento de um diverso portfólio de tecnologias, que, em conjunto, reduzirão as emissões de gases causadores do efeito estufa, fomentarão pesquisa e desenvolvimento tecnológico, reduzirão custos de produção e preservarão a necessária segurança energética. Repudiamos a prática de discriminação de algumas tecnologias, principalmente quando baseada em verdades econômicas ou interesses políticos e econômicos circunstanciais.

* Leonam dos Santos Guimarães, engenheiro naval (PhD) e nuclear (MSc), assistente da presidência da Eletronuclear S.A. e membro do Grupo Permanente de Assessoria em Energia Nuclear da AIEA e ** Dráusio Lima Atalla é engenheiro mecânico, supervisor para novas usinas da Eletronuclear S.A.

Nota da redação da REBIA – O autor se esquece ou omite que os custos de desativação de uma usina nuclear bem como de estocagem de resíduos radiotivos não são sequer considerados nos estudos de custo-benefício das mesmas, em particular no Brasil.  Ou seja, constituem-se, também, num subsídio indireto de alto peso para a instalação desse tipo de geração.

Fonte: Portal do Meio Ambiente

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Sobre Lincoln Herbert

Professor de Tecnologia da Informação.
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